Fala quem sabe.

Edite Fernandes? É uma mulher, que joga futebol no CF Benfica, já representou a Seleção Nacional A por 132 vezes e marcou 39 golos em 9184 minutos jogados. Será preciso dizer mais alguma coisa? Acho que não.

A Edite é também colega e amiga de infância. Chegamos a cruzar algumas vezes em torneios de verão, nos tão famosos torneios de futebol de salão, ou o futebol de cinco. Eu Poveira e ela Vileira e quem é do norte sabe a rivalidade que existe entre as duas cidades, no entanto, isso nunca se notou quando nos encontrávamos dentro de campo. Éramos novas mas já sabíamos na altura que apenas juntas podíamos dar a cara pela causa que ambas tínhamos em comum. ”Mulher também joga à bola”. É que nós olhamos à nossa volta e só víamos rapazes e homens. Não tínhamos referências no feminino. Não era fácil, confesso.

Passados mais de 20 anos escrevo este artigo com um sorriso agridoce pois vejo e sinto que como ela, muitas lutaram para que o jogo que é de todos fosse também de todas . Recentemente vi um artigo no jornal abola, em que a Edite falava um pouco do estado actual das ”coisas” e do futebol feminino. E quando uma internacional como a Edite Fernandes fala, então pede-se respeito e atenção. É o mínimo que ela merece.

Então fiquem com as palavras da Edite.

”Houve mudanças significativas no que à Liga BPI diz respeito, a Federação Portuguesa de Futebol decidiu alterar os quadros competitivos, existindo agora 20 equipas divididas por zonas Norte e Sul.

Faz-me lembrar há 20 anos quando existia um campeonato nesses termos, na minha opinião vai acabar por perder qualidade e ser menos competitiva… Se nos últimos anos o futebol feminino estava a conquistar o seu espaço no desporto nacional, com entrada dos clubes grandes, com transmissões de jogos na televisão, com o apuramento da Seleção Nacional para a fase final do Europeu e, de repente, tudo muda, voltamos a outros tempos… Vamos ver no que dá…”

Depois de ler as palavras, senti uma mágoa tremenda. Não por mim, porque nunca fiz carreira em futebol, nem no futsal, mas por ela e por todas aquelas que até aqui fizeram e ainda querem fazer carreira na modalidade que mais amam. Os sacrifícios que as jogadoras tem de fazer ao longo da carreira é impensável para um ser humano comum e sem talento para a bola. Só alguém com um força muito grande pode atingir o feito que jogadoras como a Edite conseguiram.

My coach said I ran like a girl, I said if he could run a little faster he could too.”
—Mia Hamm

Em Portugal não se valorizam estas mulheres. Lá fora são usadas como uma bandeira da modalidade. São respeitadas. São-lhes oferecidos cargos de reconhecimento e valor. Cargos onde elas podem fazer a diferença. Em Portugal elas são ignoradas, como se já tivessem passado o prazo de validade e tudo o que fizeram não fosse servir de aprendizagem para tantas outras que ainda estão por vir. Em Portugal elas não podem fazer a diferença. Eles podem. Elas não. Em Portugal eles são convidados para fazer parte da estruturas importantes no desporto, para serem directores, aqui e ali, e elas são convidadas para Galas, porque até ficam bem na fotografia.

“Sometimes it’s worth risking it all for a dream only you can see.” Megan Rapinoe

A liberdade de expressão em Portugal tem um preço tão alto não tem? Tem. Cada vez mais. Tu não podes ser livre de ideologias, pensamentos, crenças e emoções e estar dependente de estruturas com as quais não concordas. E temos tantos exemplos desses não temos? Infelizmente temos. É que a galopada mediática tem destas coisas. Não revela só qual o caminho que algumas querem seguir, revela também os caminhos que outros querem que elas sigam. Mas como diz o ditado ”são preciso dois para dançar o tango”.

Mas os exemplos são para isso mesmo. Para nos mostrarem algo. E que esses exemplos sirvam pelo menos para nos mostrar o caminho que não devemos seguir.

Pois não existe essência, verdade e identidade numa vida que outros querem que a gente viva. Não existe.

Valeu a pena

Recordo-me perfeitamente que na altura em que era treinadora do ACD Castanheira, da AF Viana do Castelo, saía de casa seis da tarde e só regressava por volta meia noite. Com sorte. De Póvoa de Varzim a Paredes de Coura a viagem era longa e todo o cuidado era pouco. São sacrifícios que se fazem, mas que no final, valem a pena.

Numa pesquisa recente encontrei, por acaso, estas palavras, numa entrevista de Tânia Freitas. Confesso que fiquei emocionada. Deixou um sorriso nos lábios. Valeu a pena. No dia em que uma jogadora te é grata por algo, então, o nosso troféu está conquistado. Valeu a pena. 

Tânia era uma das jogadoras mais humilde, mais competitiva e trabalhadora do ACD Castanheira. Ainda hoje lá está. Ainda hoje marca golos, ainda hoje é bi campeã distrital e é feliz na modalidade de todas nós.

Na vida, tudo pode ser uma questão de oportunidades, que tu agarras com toda a tua força ou deixas ir com toda a tua indiferença e medo. Paulo Coelho tem um pensamento interessante sobre o medo. ” Se tens medo não vás, mas se fores, não tenhas medo.”

Tânia, estou muito grata pelas tuas palavras.
Fiquem com o excerto da entrevista.

”A Tânia afirmou-se nas últimas temporadas como a atleta do Castanheira que mais evoluiu. Hoje é um elemento indispensável na equipa. Como conseguiu dar o salto de um patamar menos vistoso para o degrau que hoje ocupa e que faz de si uma das melhores futsalistas do distrito?

A melhor maneira de evoluir é trabalhar arduamente para fazer o melhor todos os dias, esperando pela minha oportunidade para poder demonstrar o meu valor.

Tive uma treinadora chamada Marlene Laundos que acreditou em mim como mais ninguém o fez. E eu tentei corresponder à oportunidade que me foi dada, achando que ganhei a aposta que ela fez em mim. Desde já o meu obrigada por ter acreditado em mim.”

Obrigada Edite!

O que posso dizer da Edite?

Que é uma mulher extraordinária dentro e fora dos relvados e que soube, como poucas, prestigiar o futebol Português. Como poucas. Um talento tremendo e uma dedicação e capacidade de superação que hoje em dia praticamente não existe.

E se a Federação Portuguesa de Futebol celebra o facto da primeira participação histórica num Campeonato Europeu estar prestes a acontecer em muito se deve a talentos como o dela, da Carla Couto entre tantas outras que mesmo sem o mediatismo, divulgação e apoio financeiro, persistiu e resistiu acreditando sempre que O DIA estaria por chegar.

Continuo a acreditar que nenhuma jogadora deve dizer Adeus à Seleção sem participar na prova mais importante da carreira no entanto o nosso país continua sem saber tratar as ”mais velhas” com o devido respeito e dignidade. Por vezes é preciso mais coragem para fazer o que deve ser feito do que fazer o que tem de ser feito.

20 anos de dedicação.

Obrigada amiga por tudo o que deste ao nosso País!