O Adeus da Naty

Estas duas últimas semanas em Londres tem sido completamente rodeadas de notícias e decisões difíceis. Por isso, quando soube da notícia que Naty ia abdicar das balizas, nem tive muito tempo para processar e pensar sobre o assunto. Para ser sincera, faz tempo que já sabia que isso iria acontecer, mas na realidade, sempre tinha uma pequena esperança que ela se aguentasse mais uma época.

Não poderia deixar passar este momento como se fosse mais um no futsal porque não o é. Vou apenas escrever sobre os momentos que mais ficaram na minha memória por variados motivos.

O primeiro momento que vou guardar em mim foi no Mundial de Futsal que se realizou em Oliveira de Azemeis, ano 2012. Portugal nas meias finais com Espanha e quem entra para defender as grandes penalidades? A Naty. Claro. E se naquele dia carimbamos a final do Mundial foi devido ao seu talento. Eu estava a fazer a cobertura do Mundial para o site que liderava, juntamente com colaboradoras fantásticas, filmando e mais tarde editando este video que vos apresento.

Imaginem só que estava na bancada dos Média, com uma câmara sem tripé, a filmar o momento mais decisivo da partida. Queria saltar, festejar, pular de alegria mas não podia. A minha obrigação era primeiro com a gravação e depois com os festejos. Mas posso-vos dizer que foi um dos momentos mais loucos e felizes da minha vida. Obrigada Naty!

O segundo momento que guardo em mim, foi a final da Taça Nacional, corria a época 12/13. Sabem porque me lembro? Porque foi o ano em que deixei de jogar futsal. Estava então no FC Vermoim, e fizemos a Final Four da Taça Nacional em Vila Real. Sabem com quem fiquei no quarto? Com a Carla Vanessa! Escusado será dizer que não podia ter tido melhor companhia. Mas continuando.

Nessa Final 4, o FC Vermoim, Quinta dos Lombos, Restauradores Avintenses e SL Benfica lutavam pelo título nacional. Coisa pouca. Que final! Ficou tudo decidido nos últimos minutos, da última jornada. Mais uma vez a Naty, superou qualquer expectativa e carregou os Lombos e as Lombitas para o título nacional. Nessa altura, como eu passava mais tempo no banco do que a jogar, pude observar e avaliar o quão gigante era o seu talento.

Taça Nacional Feminina de Futsal. Final Four. SL Benfica 2 vs CRC Quinta dos Lombos 4

Tenho a profunda convicção que o talento vs performance de uma jogadora é tão efectivo e determinante quanto a confiança que lhes é dedicada. Se um treinador/a confia cegamente na sua jogadora, então ela é capaz de se transcender até nos momentos mais difíceis, aqueles em que as pernas pesam mais e o ar fica mais difícil de ‘engolir’.

Compromisso emocional, acho que é assim designado pelos especialistas nos tempos que correm. Porque nada tem mais força do que a fé e a energia positiva que depositam em nós como se nos carregasse pelas horas de mais dúvida e incerteza. Porque quando alguém acredita em ti, e te mostra usando uma linguagem verbal e não verbal, então tu superas-te de uma forma que nem tu sabes como. Interessante, como outros podem ou não influenciar as nossas ações.

Por isso nunca entendi muito bem porque é que a Naty nunca teve essa fé e essa energia por parte da equipa técnica nacional na hora das grandes decisões. O talento e dedicação da Naty merecia, no meu entendimento, mais minutos com a camisola da Quinas. Mas, como sempre, esta é apenas a minha opinião. Nada mais.

65 Internacionalizações. 1247 minutos jogados. 1 golo marcado.

Desejo que este passo seguinte na vida da Naty seja feito de forma tranquila e segura e acima de tudo, desejo que ela continue ligada à modalidade por muitos e muitos anos. Ser treinadora de futsal, mais especificamente, de guarda redes é algo que a nossa modalidade precisa e muito. As nossas referências do jogo devem permanecer para ensinar o jogo. Com o mesmo cuidado, dedicação, competência, valores e saber estar. E quem melhor para isso do que ex internacionais? Não conheço.

Naty, obrigada pelas memórias que nos deixas. Acima de tudo, obrigada pela forma como nos deixas essas memórias. Foi um prazer absurdo ver-te jogar e um orgulho tremendo ver-te representar a nossa seleção.

Um legado só. Obrigada.

Treinadora de novo!

E volvidos 7 anos eis que tenho a possibilidade de renovar o título profissional de treinadora de futsal Grau II. E tudo porque temos uma empresa em Portugal que tem trabalhado de forma exemplar no que diz respeito a formar treinadores, treinadoras, directores e directoras técnicas de Portugal. Na realidade temos várias empresas, mas quero realçar aquela com a qual mais trabalho.

Graças à equipa do Uniques’s e às fantásticas formações on-line, eis que mesmo longe do meu País tive a possibilidade de realizar as Unidades de Créditos necessárias para a renovação do título. Sem a excelente qualidade de serviço, os preços acessíveis, a qualidade dos formadores, acho que dificilmente teria a possibilidade de o fazer, confesso.

De uma forma geral gostei dos conteúdos debatidos e apresentados e passei fins de tarde/noite e fins-de-semana colada ao computador como muitos outros, no entanto, não pude deixar de reparar que tínhamos 0 mulheres nos diferentes painéis das devidas formações. De futuro, vou continuar a apostar nesta empresa formadora, de preferência se tiver mais mulheres a apresentar o seus temas, trabalho e experiências pessoais. Este é o meu desafio para Eles.

Não tenho a menor dúvida que temos excelentes presidentes, dirigentes, gestoras desportivas, professoras, treinadoras, directoras técnicas espalhadas por este país fora, e nada faria mais sentido para treinadoras e treinadores aprenderem também com outras treinadoras.

Porque se elas não tem a oportunidade de mostrarem o quão interessante, competente e enriquecedor é o seu trabalho então nunca iremos fugir dos números alarmantes e desanimadores que temos em Portugal.

Num retrato a partir de indicadores estatísticos recolhidos no processo de emissão de Títulos Profissionais entre 2010 e 2017, o IPDJ apresentou o seu estudo a todos os demais interessados. Numa das conclusões deste estudo foi-nos dito que no treino desportivo, em cada centena de Treinadores/as, 14 são mulheres e 86 são homens. Nos Técnicos/as de Exercício Físico/Diretores/as Técnicos/as, em cada 100, 38 são mulheres e 62 são homens.

Quero acreditar que desde 2017 até 2020, este valores não diferem em muito, no entanto, as diferentes entidades desportivas portuguesas, pouco ou nada tem feito para mudar esta realidade. E a reflectir sobre este aspecto, eis que dei por mim a pensar no quão importante seria ter empresas com a qualidade da Unique’s, com uma visibilidade a nível nacional e internacional terem em atenção esta premissa tão importante para o aumento dos destes números em Portugal.

Dei por mim também a pensar em como gostaria de ver a Portugal Football School e FPF, desenvolver cursos apenas para mulheres, com preços acessíveis e com uma continuidade prática com a existência de estágios em clubes de excelência. E quando a Federação Portuguesa de Futebol liderar pelo exemplo, então talvez, todas as demais empresas também o façam. Até que esse dia chegue sinto que é a minha obrigação e dever alertar e sensibilizar os demais para o tema.

Tenho a plena convicção que só através de medidas de discriminação positiva podemos atingir um equilíbrio entre os géneros. Até lá vamos continuar a ”picar pedra” da alvorada ao anoitecer, até que a alma se canse e o coração se desvaneça.

Para terminar este artigo deixo-vos com duas frases, de duas activistas, que mesmo vivendo em épocas tão diferentes, lutaram e lutam ainda pelos mesmo direitos, valores e princípios.

”I ask no favors for my sex. I surrender not our claim to equality. All I ask of our brethren is, that they will take their feet from off our necks, and permit us to stand upright on that ground which God designed us to occupy.”

July 17, 1837, Sara Moore Grimké

“We cannot all succeed when half of us are held back.”

Malala Yousafzai, activist and 2014 Nobel prize winner